Monday, February 28, 2005

Cesário Verde (1855-1886)

Com o poeta Cesário Verde a literatura e a poesia chegam definitivamente às camadas mais humildes da população portuguesa, já que Cesário é filho de um pequeno comerciante de ferragens, pertencendo a um estrato da população que até aí andava mais ou menos arredado da arte literária. O Livro de Cesário Verde é essa obra de homenagem a um Portugal ainda literariamente desconhecido e esquecido.
Estamos diante de uma situação em que se opera a democratização da arte, não só nos seus agentes e autores mas também nos temas abordados, nas preocupações veiculadas e nas referências concretas da sua cenografia (espaços e figurantes, os tópicos e lugares comuns da vida burguesa e proletária).
A poesia de Cesário enquadra-se como nenhuma outra no espaço palmilhado pelo poeta no seu rotineiro dia a dia, de casa para a loja, na baixa lisboeta. O poeta apresenta-se como um andarilho que calcorreia os espaços urbanos de uma Lisboa a despertar para uma revolução industrial tardia e desorganizada, e que vai captando, com uma observação minuciosa e sonhadora (transformadora), os movimentos, as gentes, os objectos, as luzes, os cheiros ; em suma, todos os ingredientes de um quadro rico pela variedade e pela natureza humana que o enche. O seu estilo de abordagem aos motivos poéticos é marcado pela feição deambulatória, pelo que é natural o uso de verbos como os de «passar», «errar», «entrar», «sair», «seguir», «percorrer» e tantos outros que se referem ao acto contínuo do poeta em trânsito.

As varinas, os calceteiros, as pequenas actrizes, a engomadeira tísica, as vendedoras de hortaliças, as regateiras, as carvoeiras, os estivadores, a cidade portuária , de trabalho e de frenesi, tudo nos é apresentado em tons modernistas numa poesia tão marcadamente plástica e pictórica.

A visão de Cesário tem o talismã de operar a transmutação da imagem. Todos os objectos e seres se sujeitam a esse exercício da sua imaginação, marcada pelos tons saudosos dos ambientes abertos e saudáveis do campo. Os dissabores da modernidade, com cheiro a combustíveis queimados e a águas salobras, os ambientes pouco salubres de uma cidade que cresce demasiado em suas estruturas arcaicas, a problemática de um operariado em convulsão e dominado por fortes desequilíbrios sociais, deixando transparecer uma raiva surda e sem expressão exterior, ao lado de uma pequena burguesia que oscila entre a sua dedicação mercantilista e o esvoaçar em torno de outros grupos economicamente mais fortes, como é o caso da actrizita das Cristalizações.

Na sua poesia destacam-se as seguintes linhas temáticas:

a) A realidade objectiva e quotidiana da cidade
A cidade cria no poeta uma dupla reacção: de claustrofobia e enjoo, pelo seu ambiente pouco salubre, e de fascínio pelas grandes metrópoles da Europa e do Mundo. É todo o fervilhar da cidade, no que tem de vivo e de agitado, de nobre e vil, de conforto e de mal-estar, no trabalho e na calma, nos dias de chuva e nos empoeirados dias de calor, nos objectos e espaços e nas suas gentes, é de tudo isto que a poesia de Cesário nos fala, mas não desinteressada e apaticamente, como seria próprio de um realista ou de um naturalista. Cesário, pelo contrário, mostra-se nervoso, entediado, com ânsias de poder fugir dali, compadecido daqueles que vegetam num ambiente tão hostil. O desejo de fuga torna-se de tal novo evidente que a própria poesia é pretexto para essa fuga, quando o cesto de hortaliça pousado no átrio do hotel lhe lembra a imagem rústica de uma horta saloia. Poemas mais característicos desta temática são: O Sentimento de um Ocidental , Cristalizações, Num Bairro Moderno...

b) A realidade da vida do campo.
O fascínio pelo campo inicia-se logo que o tédio e a angústia da cidade se apodera do poeta. O campo proporciona-lhe um ar mais limpo, um ambiente mais acolhedor que lhe lembra a realidade familiar e os tempos vividos na sua quinta de Linda-a-Pastora, com a exuberância e a suculência dos frutos . É nesse reino que a sua alma se dilata e esquece do seu caso clínico ( a tuberculose). Em De Verão e Provincianas é essa paisagem bucólica e campestre que o anima. É aí que ele lastima a sorte daqueles que vivem enclausurados nas gavetas de uma cidade abafada e malcheirosa; o que também está sugerido no longo poema Nós. Apenas um senão neste quadro verdadeiramente idílico, é a situação dos trabalhadores braçais vilmente explorados pelos lavradores, que os escolhem e esgotam, como se de manadas de gado se tratassem.
Associado a esta temática podemos considerar o mito de Anteu. Quando o poeta está a fraquejar, sucumbindo face à estagnação e à doença, encontra forças renovadas na terra criadora. É no campo que estão as energias capazes para o libertarem do ambiente hostil e insalubre da cidade.

c) Cesário preocupa-se com a sorte e a dignidade dos humildes.
O século XIX é o século do despertar da consciência dos que trabalham, dos assalariados. Cesário terá tido o mérito de ter esboçado sobre os que mourejam na cidade um olhar solidário e compreensivo. Não ficou insensível à dor daqueles que a seu lado , na rua, nos afazeres mais diversos, se arrastavam e aos seus problemas numa peregrinação custosa e sofrida. A atenção aumenta em relação aos que pareciam mais castigados pela sorte; o cansaço, a exploração patronal, a miséria mais sórdida, os vícios que os desgraçam, a pobreza mais lesiva são captados com um traço vigoroso, revelando um poeta possuído por um espírito de profunda solidariedade. No poema Contrariedades , ao referir-se à pobre e «tísica» engomadeira, o poeta expressa toda a sua humana compaixão por aqueles a quem a sociedade não dá mais do que «chá e pão». O mesmo se observa em Cristalizações e em Sentimento de um Ocidental.

d) Linguagem e estilo
Quanto à linguagem e ao estilo, Cesário , usando do rigor formal dos parnasianos, logrou dar-nos uma expressão poética de uma riqueza inquestionável: é o ritmo dos seus versos, a expressividade do vocabulário (adjectivos e advérbios de modo), a criatividade das sua imagens (comparações, metáforas), é a minúcia do traço geometricamente bem desenhado - «E, apuro-me em lançar originais e exactos, // os meus alexandrinos» (Contrariedades) - , da sugestividade dos vocábulos, em hipálages, metonímias, gradações, jogos de significações ( conotação, polissemia,..).
Na esteira de Eça de Queirós, Cesário deu à língua portuguesa uma capacidade de deslumbramento que a modernidade até então não tinha conhecido.
Com Cesário é já o impressionismo, com toda a força de sugestão da cor, da luz e dos traços ora difusos ora nítidos, que domina. Veja-se o poema De Tarde. Aí as técnicas da pintura francesa parecem inundar por completo a poesia, dando-lhe beleza e expressividade, afastando-a do tom sentimentalista e piegas dos românticos e aproximando-a do conceito autêntico da arte pela arte.

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