Almeida Garrett (notas biobliográficas)
ALMEIDA GARRETT (1799- 1854) A propósito do 2.º centenário do nascimento de Garrett. Há 200 anos atrás, na cidade do Porto nasce João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett, que havia de tornar-se num dos maiores vultos da nossa literatura contemporânea. Por todo o país, os meios literários, as escolas e as companhias de teatro não esqueceram a efeméride e tributaram a Almeida Garrett, cada um à sua maneira, a homenagem merecida. A notoriedade deste homem ficou assinalada de forma indelével na nossa história, pelas suas amplas qualidades humanas, pelo seu talento de escritor e pela veia crítica com que zurzia nos que considerava responsáveis pela situação precária em que se encontrava o país, quando o Liberalismo o tomou de assalto. O contributo de Garrett é considerável. Como político, foi um lutador incansável pela liberdade e pelo progresso, o que lhe valeu dois exílios, na França e na Inglaterra, exibindo uma enorme coragem ao enfrentar o absolutismo miguelista. Depois da vitória de D. Pedro IV sobre seu irmão (D. Miguel), e estabelecido o constitucionalismo, Garrett ocupou cargos políticos relevantes, como diplomata, cônsul, ministro dos Negócios Estrangeiros e, talvez aquele lhe deu mais prazer, o de reorganizador do teatro nacional, em que veio a investir o melhor do seu esforço. Como escritor, cedo revelou a sua veia artística, aos treze anos tinha já escrito uma tragédia, e a sua predilecção foi naturalmente para o género dramático. Quem nunca ouviu falar em Frei Luís de Sousa, que muitas companhias de teatro têm levado à cena e que o clássico cinema português passou ao ecrã; esse grande drama romântico cuja acção, manifestamente trágica, versa a história do cronista de Frei Bartolomeu dos Mártires, Arcebispo de Braga do século XVI. Nessa peça que constitui uma afirmação de talento e patriotismo, o autor criou caracteres que são ímpares na nossa literatura. Ninguém, tendo lido o Frei Luís de Sousa, jamais esquecerá as personagens de Telmo Pais, Madalena, Maria e Manuel Coutinho. Outra referência fundamental da sua obra é o livro Viagens na Minha Terra, que o povo consagrou com o nome da personagem mais marcante da novela amorosa e trágica que esse livro encerra - a novela da «Joaninha dos olhos verdes». Mas é muito mais do que uma simples novela este livro. É um passeio por um Portugal autêntico que estava ameaçado de extinção ou a ser delapidado pelas mãos rapaces dos «barões», quando os bens da Igreja eram postos a saque pelos agiotas convertidos ao Liberalismo. Nesse livro, o amor à paisagem portuguesa, aos monumentos, às tradições multisseculares das nossas vilas e cidades, às suas lendas, à valentia dos «ílhavos» e dos «campinos», aos bons vinhos que o úbere da terra produz, aos bons ares, é um acto de fé contínuo. São incontornáveis o humor e a graça do seu estilo, saboríssima a sua ironia. Eis um pequeno exemplo da sua veia satírica, que podia ter ainda algum préstimo nos nossos dias: «Não concebem um secretário de Estado filósofo, um ministro poeta, escritor elegante, cheio de graça e talento? Não, bem vejo que não: têm a ideia fixa de que um ministro de Estado há-de ser por força algum sensaborão, malcriado e petulante, ou um pedante impostor e papelão, ou um hipócrita, um gebo, um intrigante. Mas isto é nos países adiantados como o nosso, em que já é indiferente para a coisa pública, em que povo nem príncipe lhes não importa já, em que mãos se entregam, a que cabeças se confiam» (Viagens, cap.IV). Garrett, como prosador, foi um verdadeiro revolucionador da língua portuguesa. Tornou a construção frásica mais flexível e ajustada à língua oral. Introduziu no texto marcas da oralidade, plebeísmos e uma linguagem mais expressiva. Simultaneamente, lançou mão, com grande sabedoria, de recursos expressivos, ironias, metáforas, adjectivação múltipla e do uso dos diminutivos dos quais extraía um valioso efeito estético. Como resultado das suas inovações no estilo, contribuiu para que os seus textos se lessem como se de uma conversa amena se tratassem. O seu trabalho nesse aspecto continua a ser uma fonte de inspiração. Como poeta, tal como ele o diz, foi-o na Primavera, no Estio e havia de sê-lo no Inverno. Quer isto dizer, que nasceu poeta e por toda a vida se entregou à poesia com toda a sua inteligência e sensibilidade. O poeta das Flores sem Fruto, com o poema as «Minhas Asas» e das Folhas Caídas é um vate inspirado, que se deixa guiar pelo sentimento, que extravasa na poesia os dramas de uma vida, em que os encontros e os desencontros amorosos foram tantos. Mas também é o poeta romântico que conseguiu captar numa singela composição a essência da sedução humana: «Pescador da barca bela Onde vais pescar com ela, Que é tão bela, Ó pescador?» Garrett foi o nosso primeiro romântico, apesar de nunca se deixar cair nos exageros que outros românticos haviam de exibir, porque ele, como nos diz nas suas Viagens, havia de morrer no fé de Boileau, ou seja , «Rien n’est beau que le vrai» - não pode haver beleza sem verdade. No entanto, não se pense que a sua literatura é uma cópia fiel da realidade, nem pensar. Outra inspiração desde cedo lhe entrou na alma. As duas criadas que o ajudaram a crescer (a Brígida e a Rosa) nutriram-lhe o gosto pelas trovas e romances populares. Tal gosto não se esmoreceu e havia de dar azo à publicação do Romanceiro. Os romances populares estão repletos de mistério e fantasia que o povo cultiva de forma muito própria. Com este gesto Garrett inaugurou o gosto pela recolha da património oral do nosso povo, no que seria seguido por tantos outros homens . Pelo que sucintamente se expôs, se vê quanto merecida é a homenagem que aqui prestamos ao grande Garrett. Um homem cheio de grandezas e contradições, que cultivava o humor e a fineza de espírito, e que ao mesmo tempo se preocupava de forma tão excessiva com a sua aparência física, numa vaidade que ganhou notoriedade. Dizem as más línguas que Garrett gastava maios tempo a aprumar-se antes de sair à rua de manhã que a compor um acto do seu Frei Luís de Sousa. A melhor homenagem que lhe podemos fazer é lê-lo e beber na sua escrita o talento, a graça de dizer, a emoção de quem escreve por gosto neste nosso belo idioma. Manuel Sousa, in Ecos da Senhora de Porto D'Ave, 1999. |
