Canhenhos

Monday, February 28, 2005

Almeida Garrett (notas biobliográficas)

ALMEIDA GARRETT (1799- 1854)
A propósito do 2.º centenário do nascimento de Garrett.

Há 200 anos atrás, na cidade do Porto nasce João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett, que havia de tornar-se num dos maiores vultos da nossa literatura contemporânea. Por todo o país, os meios literários, as escolas e as companhias de teatro não esqueceram a efeméride e tributaram a Almeida Garrett, cada um à sua maneira, a homenagem merecida.
A notoriedade deste homem ficou assinalada de forma indelével na nossa história, pelas suas amplas qualidades humanas, pelo seu talento de escritor e pela veia crítica com que zurzia nos que considerava responsáveis pela situação precária em que se encontrava o país, quando o Liberalismo o tomou de assalto.
O contributo de Garrett é considerável. Como político, foi um lutador incansável pela liberdade e pelo progresso, o que lhe valeu dois exílios, na França e na Inglaterra, exibindo uma enorme coragem ao enfrentar o absolutismo miguelista. Depois da vitória de D. Pedro IV sobre seu irmão (D. Miguel), e estabelecido o constitucionalismo, Garrett ocupou cargos políticos relevantes, como diplomata, cônsul, ministro dos Negócios Estrangeiros e, talvez aquele lhe deu mais prazer, o de reorganizador do teatro nacional, em que veio a investir o melhor do seu esforço.
Como escritor, cedo revelou a sua veia artística, aos treze anos tinha já escrito uma tragédia, e a sua predilecção foi naturalmente para o género dramático. Quem nunca ouviu falar em Frei Luís de Sousa, que muitas companhias de teatro têm levado à cena e que o clássico cinema português passou ao ecrã; esse grande drama romântico cuja acção, manifestamente trágica, versa a história do cronista de Frei Bartolomeu dos Mártires, Arcebispo de Braga do século XVI. Nessa peça que constitui uma afirmação de talento e patriotismo, o autor criou caracteres que são ímpares na nossa literatura. Ninguém, tendo lido o Frei Luís de Sousa, jamais esquecerá as personagens de Telmo Pais, Madalena, Maria e Manuel Coutinho.
Outra referência fundamental da sua obra é o livro Viagens na Minha Terra, que o povo consagrou com o nome da personagem mais marcante da novela amorosa e trágica que esse livro encerra - a novela da «Joaninha dos olhos verdes». Mas é muito mais do que uma simples novela este livro. É um passeio por um Portugal autêntico que estava ameaçado de extinção ou a ser delapidado pelas mãos rapaces dos «barões», quando os bens da Igreja eram postos a saque pelos agiotas convertidos ao Liberalismo. Nesse livro, o amor à paisagem portuguesa, aos monumentos, às tradições multisseculares das nossas vilas e cidades, às suas lendas, à valentia dos «ílhavos» e dos «campinos», aos bons vinhos que o úbere da terra produz, aos bons ares, é um acto de fé contínuo.
São incontornáveis o humor e a graça do seu estilo, saboríssima a sua ironia. Eis um pequeno exemplo da sua veia satírica, que podia ter ainda algum préstimo nos nossos dias:
«Não concebem um secretário de Estado filósofo, um ministro poeta, escritor elegante, cheio de graça e talento? Não, bem vejo que não: têm a ideia fixa de que um ministro de Estado há-de ser por força algum sensaborão, malcriado e petulante, ou um pedante impostor e papelão, ou um hipócrita, um gebo, um intrigante. Mas isto é nos países adiantados como o nosso, em que já é indiferente para a coisa pública, em que povo nem príncipe lhes não importa já, em que mãos se entregam, a que cabeças se confiam» (Viagens, cap.IV).
Garrett, como prosador, foi um verdadeiro revolucionador da língua portuguesa. Tornou a construção frásica mais flexível e ajustada à língua oral. Introduziu no texto marcas da oralidade, plebeísmos e uma linguagem mais expressiva. Simultaneamente, lançou mão, com grande sabedoria, de recursos expressivos, ironias, metáforas, adjectivação múltipla e do uso dos diminutivos dos quais extraía um valioso efeito estético. Como resultado das suas inovações no estilo, contribuiu para que os seus textos se lessem como se de uma conversa amena se tratassem. O seu trabalho nesse aspecto continua a ser uma fonte de inspiração.
Como poeta, tal como ele o diz, foi-o na Primavera, no Estio e havia de sê-lo no Inverno. Quer isto dizer, que nasceu poeta e por toda a vida se entregou à poesia com toda a sua inteligência e sensibilidade. O poeta das Flores sem Fruto, com o poema as «Minhas Asas» e das Folhas Caídas é um vate inspirado, que se deixa guiar pelo sentimento, que extravasa na poesia os dramas de uma vida, em que os encontros e os desencontros amorosos foram tantos. Mas também é o poeta romântico que conseguiu captar numa singela composição a essência da sedução humana:
«Pescador da barca bela
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,
Ó pescador?»
Garrett foi o nosso primeiro romântico, apesar de nunca se deixar cair nos exageros que outros românticos haviam de exibir, porque ele, como nos diz nas suas Viagens, havia de morrer no fé de Boileau, ou seja , «Rien n’est beau que le vrai» - não pode haver beleza sem verdade. No entanto, não se pense que a sua literatura é uma cópia fiel da realidade, nem pensar. Outra inspiração desde cedo lhe entrou na alma. As duas criadas que o ajudaram a crescer (a Brígida e a Rosa) nutriram-lhe o gosto pelas trovas e romances populares. Tal gosto não se esmoreceu e havia de dar azo à publicação do Romanceiro. Os romances populares estão repletos de mistério e fantasia que o povo cultiva de forma muito própria. Com este gesto Garrett inaugurou o gosto pela recolha da património oral do nosso povo, no que seria seguido por tantos outros homens .
Pelo que sucintamente se expôs, se vê quanto merecida é a homenagem que aqui prestamos ao grande Garrett. Um homem cheio de grandezas e contradições, que cultivava o humor e a fineza de espírito, e que ao mesmo tempo se preocupava de forma tão excessiva com a sua aparência física, numa vaidade que ganhou notoriedade. Dizem as más línguas que Garrett gastava maios tempo a aprumar-se antes de sair à rua de manhã que a compor um acto do seu Frei Luís de Sousa.
A melhor homenagem que lhe podemos fazer é lê-lo e beber na sua escrita o talento, a graça de dizer, a emoção de quem escreve por gosto neste nosso belo idioma.

Manuel Sousa, in Ecos da Senhora de Porto D'Ave, 1999.

Frei Luís de Sousa e Folhas Caídas

Ficha de trabalho de PORTUGUÊS A - 11º Ano

TEXTO

MARIA
-(saindo pela porta da esquerda e trazendo pela mão a Telmo que parece vir de pouca vontade) Vinde, não façais bulha, que minha mãe ainda dorme. Aqui, nesta casa é que quero conversar. E não teimes,Telmo, que fiz tenção, e acabou-se!

TELMO . Menina!...

MARIA. «Menina e moça me levaram de casa de meu pai» - é o princípio daquele livro tão bonito que minha mãe diz que não entende, entendo-o eu. Mas aqui não há menina nem moça; e vós, senhor Telmo Pais, meu fiel escudeiro, «faredes o que mandado vos é». E não me repliques, que então altercamos, faz-se bulha, e acorda minha mãe, que é o que eu não quero, Coitada! Há oito dias que aqui estamos nesta casa, e é a primeira noite que dorme com sossego. Aquele palácio a arder, aquele povo a gritar, o rebate dos sinos, aquela cena toda... oh! tão grandiosa e sublime, que a mim me encheu de maravilha, que foi um espectáculo como nunca vi outro de igual majestade!... À minha pobre mãe aterrou-a, não se lhe tira dos olhos; vai a fechá-los para dormir e diz que vê aquelas chamas enoveladas em fumo a rodear-lhe a casa, a crescer para o ar e a devorar tudo com fúria infernal... o retrato de meu pai, aquele do quarto de lavor, tão seu favorito, em que ele estava tão gentil homem, vestido de cavaleiro de Malta com a sua cruz branca no peito, aquele retrato não se pode consolar de que lho não salvassem, que se queimasse ali. Vês tu? Ela, que não cria em agouros, que sempre me estava a repreender pelas minhas cismas, agora não lhe sai da cabeça que a perda do retrato é prognóstico fatal de outra perda maior, que está perto, de alguma desgraça inesperada, mas certa, que a tem de separar de meu pai. E eu agora é que faço de forte e assisada, que zombo de agouros e de sinas... para a animar, coitada!... que aqui entre nós, Teime, nunca tive tanta fé neles. Creio, oh, se creio! que são avisos que Deus nos manda para nos preparar. E há... oh! há grande desgraça a cair sobre meu pai... decerto! e sobre minha mãe também, que é o mesmo.

TELMO (disfarçando o terror de que está tomado) Não digais isso... Deus há-de fazê-lo por melhor, que lho merecem ambos (cobrando ânimo e exaltando-se). Vosso pai, D. Maria, é um português às direitas. Eu sempre o tive em boa conta; mas agora, depois que lhe vi fazer aquela acção, que o vi, com aquela alma de português velho, deitar as mãos às tochas e lançar ele mesmo o fogo à sua própria casa; queimar e destruir numa hora tanto de seu haver, tanta coisa de seu gosto, para dar um exemplo de liberdade, uma lição tremenda a estes nossos tira- nos... Oh, minha querida filha, aquilo é um homem! A minha vida, que ele queira, é sua. E a minha pena, toda a minha pena é que o não conheci, que o não estimei sempre no que ele valia.
Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa (excerto).

1. Integre o excerto na estrutura da obra.

2. Explicite o sentido da citação que Maria faz no início desta cena.

2. Comente a importância que este extracto assume para o crescendo da atmosfera trágica.
3. Caracterize psicologicamente Maria.
4. Apesar de ausente, Madalena está sempre presente no espírito das outras personagens.
4.1. Indique as razões da sua presença.
4.2. Caracterize a personagem.
5. Refira a função da personagem Telmo ao longo da obra e neste excerto.
6. Identifique os principais recursos estilísticos na principal fala de Maria.

7. Refira os argumentos do autor para classificar este texto como «uma tragédia pela sua índole».

II

1. Atenta no excerto do poema:

Este inferno de amar – como eu amo!
Quem mo pôs aqui n’alma...quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é vida – e que a vida destrói –
Como é que se veio a atear,
Quando – ai quando se há-de ela apagar?

Garrett, Folhas Caídas (extracto)

1.1. Faz um breve comentário à estrofe, considerando a temática dominante, e as características da estética da lírica garrettiana, particularmente as oposições e a pontuação (150 palavras).

Cesário Verde (1855-1886)

Com o poeta Cesário Verde a literatura e a poesia chegam definitivamente às camadas mais humildes da população portuguesa, já que Cesário é filho de um pequeno comerciante de ferragens, pertencendo a um estrato da população que até aí andava mais ou menos arredado da arte literária. O Livro de Cesário Verde é essa obra de homenagem a um Portugal ainda literariamente desconhecido e esquecido.
Estamos diante de uma situação em que se opera a democratização da arte, não só nos seus agentes e autores mas também nos temas abordados, nas preocupações veiculadas e nas referências concretas da sua cenografia (espaços e figurantes, os tópicos e lugares comuns da vida burguesa e proletária).
A poesia de Cesário enquadra-se como nenhuma outra no espaço palmilhado pelo poeta no seu rotineiro dia a dia, de casa para a loja, na baixa lisboeta. O poeta apresenta-se como um andarilho que calcorreia os espaços urbanos de uma Lisboa a despertar para uma revolução industrial tardia e desorganizada, e que vai captando, com uma observação minuciosa e sonhadora (transformadora), os movimentos, as gentes, os objectos, as luzes, os cheiros ; em suma, todos os ingredientes de um quadro rico pela variedade e pela natureza humana que o enche. O seu estilo de abordagem aos motivos poéticos é marcado pela feição deambulatória, pelo que é natural o uso de verbos como os de «passar», «errar», «entrar», «sair», «seguir», «percorrer» e tantos outros que se referem ao acto contínuo do poeta em trânsito.

As varinas, os calceteiros, as pequenas actrizes, a engomadeira tísica, as vendedoras de hortaliças, as regateiras, as carvoeiras, os estivadores, a cidade portuária , de trabalho e de frenesi, tudo nos é apresentado em tons modernistas numa poesia tão marcadamente plástica e pictórica.

A visão de Cesário tem o talismã de operar a transmutação da imagem. Todos os objectos e seres se sujeitam a esse exercício da sua imaginação, marcada pelos tons saudosos dos ambientes abertos e saudáveis do campo. Os dissabores da modernidade, com cheiro a combustíveis queimados e a águas salobras, os ambientes pouco salubres de uma cidade que cresce demasiado em suas estruturas arcaicas, a problemática de um operariado em convulsão e dominado por fortes desequilíbrios sociais, deixando transparecer uma raiva surda e sem expressão exterior, ao lado de uma pequena burguesia que oscila entre a sua dedicação mercantilista e o esvoaçar em torno de outros grupos economicamente mais fortes, como é o caso da actrizita das Cristalizações.

Na sua poesia destacam-se as seguintes linhas temáticas:

a) A realidade objectiva e quotidiana da cidade
A cidade cria no poeta uma dupla reacção: de claustrofobia e enjoo, pelo seu ambiente pouco salubre, e de fascínio pelas grandes metrópoles da Europa e do Mundo. É todo o fervilhar da cidade, no que tem de vivo e de agitado, de nobre e vil, de conforto e de mal-estar, no trabalho e na calma, nos dias de chuva e nos empoeirados dias de calor, nos objectos e espaços e nas suas gentes, é de tudo isto que a poesia de Cesário nos fala, mas não desinteressada e apaticamente, como seria próprio de um realista ou de um naturalista. Cesário, pelo contrário, mostra-se nervoso, entediado, com ânsias de poder fugir dali, compadecido daqueles que vegetam num ambiente tão hostil. O desejo de fuga torna-se de tal novo evidente que a própria poesia é pretexto para essa fuga, quando o cesto de hortaliça pousado no átrio do hotel lhe lembra a imagem rústica de uma horta saloia. Poemas mais característicos desta temática são: O Sentimento de um Ocidental , Cristalizações, Num Bairro Moderno...

b) A realidade da vida do campo.
O fascínio pelo campo inicia-se logo que o tédio e a angústia da cidade se apodera do poeta. O campo proporciona-lhe um ar mais limpo, um ambiente mais acolhedor que lhe lembra a realidade familiar e os tempos vividos na sua quinta de Linda-a-Pastora, com a exuberância e a suculência dos frutos . É nesse reino que a sua alma se dilata e esquece do seu caso clínico ( a tuberculose). Em De Verão e Provincianas é essa paisagem bucólica e campestre que o anima. É aí que ele lastima a sorte daqueles que vivem enclausurados nas gavetas de uma cidade abafada e malcheirosa; o que também está sugerido no longo poema Nós. Apenas um senão neste quadro verdadeiramente idílico, é a situação dos trabalhadores braçais vilmente explorados pelos lavradores, que os escolhem e esgotam, como se de manadas de gado se tratassem.
Associado a esta temática podemos considerar o mito de Anteu. Quando o poeta está a fraquejar, sucumbindo face à estagnação e à doença, encontra forças renovadas na terra criadora. É no campo que estão as energias capazes para o libertarem do ambiente hostil e insalubre da cidade.

c) Cesário preocupa-se com a sorte e a dignidade dos humildes.
O século XIX é o século do despertar da consciência dos que trabalham, dos assalariados. Cesário terá tido o mérito de ter esboçado sobre os que mourejam na cidade um olhar solidário e compreensivo. Não ficou insensível à dor daqueles que a seu lado , na rua, nos afazeres mais diversos, se arrastavam e aos seus problemas numa peregrinação custosa e sofrida. A atenção aumenta em relação aos que pareciam mais castigados pela sorte; o cansaço, a exploração patronal, a miséria mais sórdida, os vícios que os desgraçam, a pobreza mais lesiva são captados com um traço vigoroso, revelando um poeta possuído por um espírito de profunda solidariedade. No poema Contrariedades , ao referir-se à pobre e «tísica» engomadeira, o poeta expressa toda a sua humana compaixão por aqueles a quem a sociedade não dá mais do que «chá e pão». O mesmo se observa em Cristalizações e em Sentimento de um Ocidental.

d) Linguagem e estilo
Quanto à linguagem e ao estilo, Cesário , usando do rigor formal dos parnasianos, logrou dar-nos uma expressão poética de uma riqueza inquestionável: é o ritmo dos seus versos, a expressividade do vocabulário (adjectivos e advérbios de modo), a criatividade das sua imagens (comparações, metáforas), é a minúcia do traço geometricamente bem desenhado - «E, apuro-me em lançar originais e exactos, // os meus alexandrinos» (Contrariedades) - , da sugestividade dos vocábulos, em hipálages, metonímias, gradações, jogos de significações ( conotação, polissemia,..).
Na esteira de Eça de Queirós, Cesário deu à língua portuguesa uma capacidade de deslumbramento que a modernidade até então não tinha conhecido.
Com Cesário é já o impressionismo, com toda a força de sugestão da cor, da luz e dos traços ora difusos ora nítidos, que domina. Veja-se o poema De Tarde. Aí as técnicas da pintura francesa parecem inundar por completo a poesia, dando-lhe beleza e expressividade, afastando-a do tom sentimentalista e piegas dos românticos e aproximando-a do conceito autêntico da arte pela arte.

Materiais de Cesário Verde

Essencial a reter sobre Cesário Verde

· Cesário Verde interessa-se pelo real, procurando descrever com objectividade os objectos, pintá-los, despertar nos outros ideias e sensações.
· Cesário é o poeta-pintor que capta as impressões da realidade. Próximo do realismo e do naturalismo, presta atenção aos pormenores mínimos que servem para transmitir as percepções sensoriais.
· Propõe uma interpretação da cidade de Lisboa, por onde deambula; descreve-a, absorve-lhe a melancolia e a monotonia; projecta nela imagens da mulher formosa, fria e altiva.
· Do campo, canta a vida rústica, de canseiras, a sua vitalidade e saúde.
· Poeta do quotidiano, tenta visionar situações vividas no dia-a-dia, revelando uma atenção permanente ao que o rodeia.
· Impressionista, procura surpreender o momento em que os objectos "ganham a sua inteira individualidade".
· Cesário consegue traduzir uma realidade multifacetada, através de uma grande plasticidade estética.
· O contraste cidade/campo é um dos temas fundamentais da poesia de Cesário e revela-nos o seu amor pelo rústico e natural, que celebra, por oposição a um certo repúdio da perversidade e dos pseudo-valores urbanos e industriais, a que, no entanto, adere.
· A oposição cidade/campo conduz simbolicamente à oposição morte/vida. É a morte que cria em Cesário uma repulsa à cidade por onde gostava de deambular, mas que acaba por aprisioná-lo.
· O tempo é um perpétuo fluir e a esperança só é possível para as novas gerações.
· A cidade surge associada à mulher fatal e à morte, enquanto o campo se une à imagem da mulher angélica e da vida. Há uma sexualização da cidade e do campo que incorpora as alegorias da morte e da vida.
· Cesário procura pintar 'quadros por letras, por sinais", criando uma pintura literária e rítmica de temas comuns e realidades comezinhas.
· Sensível ao estimulo visual, Cesário procura reter diversas impressões visuais e outras para sobrepor imagens que acabem por traduzir e reiterar a visão do que o rodeia e traduzir a sua inspiração pessoal.
· A obra de Cesário Verde caracteriza-se, também, pela técnica impressionista, ao acumular pormenores das sensações captadas e pelo recurso às sinestesias, que lhe permitem transmitir sugestões e impressões da realidade.
· Em Cesário Verde, o campo, ou melhor, a terra, apresenta-se salutar e fértil. Dentro desta concepção de uma terra que se revitaliza, podemos encontrar o mito de Anteu, ou seja, no contacto com o campo, o sujeito poético parece reanimar-se, sentindo forças, energias, saúde.
· O Parnasianismo tem como principais características:
- a reacção contra o romantismo;
- a defesa da objectividade temática;
- a obsessão pela perfeição formal;
- o retorno ao racionalismo e às formas poéticas clássicas; a busca da impessoalidade e da impassibilidade; a arte pela arte.