Canhenhos

Thursday, March 03, 2005

Cesário Verde - Contrariedades


Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve conta à botica!
Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais uma redacção, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A Imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras excepções, merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e a paz pela calçada abaixo,
Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua "coterie";
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulaçãao repugna aos sentimento finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exactos,
Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a "réclame", a intriga, o anúncio, a "blague",
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras...

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe a luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!

Folhas Caídas - notas explicativas


Eis alguns apontamentos que a leitura e a análise de Folhas Caídas suscitaram:

1. Este livro de poemas de Almeida Garrett nasce já numa fase adiantada da sua vida, como o título sugere, a idade outonal, quando o autor se julgava incapaz de ser poeta. Confessa o autor que os poemas se referem a «uma época de vida íntima e recolhida». Temos, portanto, simultaneamente um certa tendência para a confusão entre a Poesia e a Vida. Muitos vêem neste livro o espelho de uma paixão amorosa fulgurante que o ligou à viscondessa da Luz , Rosa de Montufar, remetendo assim um número significativo de poemas para referentes reais (o autor e aquela senhora da alta sociedade). Tal confirma-se ao nível dos textos pela profusão nas referências a luz e rosa. Por tudo isso, o livro Folhas Caídas foi lido pelo público de então como quem devassava um escândalo.

2. Nesta colectânea podemos encontrar dois grupos de poemas. Um grupo de poemas versa a temática amorosa, numa feição quase confessional, em que o sujeito poético transporta para a poesia os acontecimentos da sua história de amor, com todos os ingredientes de uma relação intensa de amor /paixão. Há mesmo quem vislumbre aí um certo exibicionismo, tão comum à personalidade marcante do poeta.
Outro grupo de poemas, sobre os quais não tem incidido de igual modo a atenção dos leitores, é constituído por poesias de circunstância mundana («Álbum», «Exilados» , «Adeus, mãe!»... ), que mais não são do que um atenuante do autor para a apresentação dos poemas da circunstância amorosa.

3. A disposição dos poemas relaciona-se com o carácter algo teatral de Garrett, que gostava de encenações, de aparato cénico. Assim se justifica que a colectânea abra com um poema/dedicatória mistificadora a um «Ignoto Deo» (a um deus desconhecido), que com a «Advertência» constitui o verdadeiro prólogo e introdução do livro.
No poema «Ignoto Deo» o poeta expressa a apetência por um idealismo de carácter platónico, onde valoriza o ideal de beleza, de verdade, o puro amor, a essência. Aí reforça o sentido do livro que apresenta a essa mulher que será a expressão viva do Ideal: «a confissão sincera /da alma que a ti voou e em ti só espera».
Segue-se, depois, a exposição da sua história de amor. O sujeito poético desenvolve essa história em três fases: sedução, idílio, e saturação, que precede a ruptura. Todavia esta história é escrita de forma anacrónica, pois o poema «Adeus» , embora seja o primeiro dessa história de amor, refere-se já ao fim da paixão amorosa, ou seja a ruptura dos amantes. Esta ruptura, associada à consciência de perda irreparável, reflecte uma situação psicológica dramática - a recusa à intimidade e ao amor, devido ao sentimento de «íntima vileza» . No fundo o sujeito poético expressa a sua incapacidade de amar, como resultado do sentimento de indignidade que se reconhece: «Este que amar-te não sabe / Porque é só terra - e não cabe /Nele uma ideia dos céus...».
Depois o poeta passa para a retrospectiva da sua história de amor. Os poemas que versam a fase da paixão são os seguintes: «Quando eu sonhava» , «Anjo Caído». O poema «Aquela Noite» trata a temática da brevidade do amor à primeira vista («coup de foudre»), que submete num instante a vida ao poder da fatalidade. Aí está bem patente a imagem da ‘mulher fatal’, aquela que provocou todo o desenvolver desta história de amor, que se prevê trágica, como se vê na presença das expressões «negro fado», «loucura», «sedução». No poema «Adeus» foi o homem, com toda a sua vileza que levou à degradação do amor e da mulher. Neste poema dá-se o contrário.
No poema «Anjo Caído», a mulher foi novamente vítima de dor e aviltamento pela ligação a um homem incapaz de verdadeiramente amar, afastando-se já da mulher fatal. Ela é o «anjo caído» que arrasta na sua queda o homem que a perdeu.
Os poemas da fase da plenitude amorosa iniciam-se com «Este Inferno de Amar» e vai até ao poema «Coquette dos prados». Estes poemas reflectem um amor em que há uma entrega total ao presente. Explora-se, aí, o jogo das antíteses inerentes à expressão do amor, imprimindo-lhe uma veemência única na poesia amorosa portuguesa, o que realça o realismo da experiência sentimental. No poema «Este Inferno de Amar» a vivência amorosa está associada à consciência de pecado, o que provoca a dualidade trágica em que se debate o eu poético apaixonado, dividido entre a aspiração a um amor «de alma», expressa nas imagens-símbolo «estrela», «céu», e a atracção da «carne», simbolizada pelo «fogo do inferno» e pelas «trevas».
O poema «Destino» constitui a auto-justificação do apaixonado, no sentido de resolver o dilema moral em que se debate: a sua submissão ao poder do amor como expressão do fatalismo próprio de todas as coisas da Natureza, e a que não pode fugir, porque é indispensável à sua razão de existir. Porém no poema «Adeus» tal é contrariado, pois aí se vincam as ideias da transitoriedade e da frustração próprias de toda a vivência amorosa.
No poema «Gozo e Dor» o poeta infringe todas convenções literárias e canta o amor físico e a posse da mulher amada. E nos poemas seguintes («Rosa sem espinhos», «Rosa pálida») há conotações deliberadas, com o fim de desvendar as suas motivações eróticas, talvez com o intuito de perpetuar pela escrita o que é efémero. Nestes poemas é de salientar as cumplicidades da intimidade amorosa expressas num tom de confidência espontânea, galanteadora, parecendo fútil, mas reforçada com a veemência apaixonada. Seguem-se alguns poemas cujos temas em destaque são o fatalismo da paixão e a ânsia de morrer, assim como a descrição alegórica da amada pela referência à flor ( poema «Rosa e Lírio»). Tratam-se dos poemas que correspondem ao idílio amoroso.
O poema «Rosa e Lírio» é, no entanto, um prenúncio da fase da separação, ainda que indirectamente: expressa-se uma oposição, que supõe uma antítese moral, embora em forma alegórica, - rosa /beleza / indiferença ; lírio / martírio /paixão .
O poema «Os cinco sentidos» constitui o centro das poesias que exprimem o amor-paixão. No poema através da expressão gradual dos sentidos se nota uma aproximação maior até ao contacto e à união total com a mulher amada. O amor daí resultante ultrapassa o prazer dos sentidos, pois vai até à morte «Em ti a minha sorte, / A minha vida em ti; /E quando venha a morte, / Será morrer por ti».
A fase seguinte é a fase da saturação ou se quisermos da desilusão. Corresponde a poemas como «Cascais», «Víbora». No primeiro evocam-se os momentos que se viveram felizes, isolados do mundo identificando-se com tudo o que os rodeava. Mas depois surge o desengano e a separação. E já nada daquela paisagem vista subjectivamente como «sítio encantado» aparece na natureza.
No poema «Estes Sítios», o passado e o presente interpenetram-se na retrospectiva da «história de amor». O amor aí evocado está associado, na perspectiva romântica, ao elogio da vida espontânea, em contacto directo com a natureza. Enquanto isso, o sujeito poético repudia a simulação da vida citadina e social. Nesse poema devem salientar-se as oposições cidade / campo, indivíduo / sociedade, autenticidade / hipocrisia, amor correspondido/ amor frustrado. Este último resultaria da intromissão da mundaneidade (o viver mundano ou social) na intimidade amorosa.
No poema «Não te amo» , o poeta a firma o seu desentendimento com a mulher amada e a sua incapacidade de amar, resultante do seu desdobramento psicológico, expresso no conflito amor / desejo. Neste poema manifesta-se a dicotomia fundamental que caracteriza a poesia de Garrett: amor ( o sentimento envolto em espiritualidade que conduz à salvação e à regeneração do homem) opõe-se ao amor-paixão, que constitui a degradação ou «perdição» do indivíduo.
No poema «Beleza» o poeta distingue entre «beleza» e «formosura», como expressão do dualismo alma / corpo. «Beleza» - remete para o amor espiritual, purificador; «formosura»- é o aspecto físico («formas de encantar»).
No poema «Anjo és» desenvolve-se a antítese anjo/mulher. Aí o poeta sugere a fascinação do eu perante a ambiguidade da mulher, expressa através da dupla interrogação.
No poema «Víbora» exprime-se a revolta contra o poder avassalador da paixão. O amor aí amaldiçoado exprime-se pela antítese vida /morte.

4. O poema «Barca Bela» caracteriza-se pela impessoalidade e ausência de dramatismo, com grande simbolismo e de feição alegórica. Ele condensa através de imagens-símbolo, em ambiente de fatalidade, toda a vivência amorosa do poeta. Este, tal como o herói romântico, o homem fatal ( «o pescador») só fugirá aos riscos terríveis do amor-paixão se recusar a pesca (sedução) da mulher-sereia, que fascina pelo seu encanto, mas que arrasta para a perdição.

5. Linhas temáticas mais dominantes:

·A expressão sincera de um coração dominado pela paixão amorosa.
·A expressão de um amor sentido e vivido e não já uma simulação ou a idealização de um amor, simplesmente intelectualizado e expresso em moldes convencionais, como nos clássicos.
·O tom confessional dos seus poemas de circunstância amorosa, alguns poemas integram-se na linha da «poesia de alcova» que caracteriza alguma poesia romântica. Alguns poemas apresentam uma certa feição dramática. Esta revela-se na constante dialéctica entre o eu poético e um tu - mulher amada. A mulher amada, interlocutora, é invocada quando ausente, ora através das inúmeras apóstrofes que a evocam, ora se sugere a sua presença nas respostas repetidas pelo sujeito poético ( poema «Adeus»).
· O amor-paixão: sentimento repleto de contradições, expressas em antíteses de vida/morte, amar/querer ( amor da alma / amor do corpo), sensualidade-erotismo / idealismo.. Esse amor resulta do encontro contraditório entre uma mulher fatal e o homem ou entre a mulher-anjo que se deixa seduzir pelo homem que apenas a deseja e é incapaz de um verdadeiro amor, que deve ser de alma e não de corpo.
·Um amor que é prazer e dor; que é salvação, quando é de alma ; e é pecado, quando apenas se vive pelos sentidos e pelo desejo.

6. Aspectos formais mais relevantes:

· Valorização das tradições poéticas portuguesas:
- preferência pela redondilha maior (sete sílabas),
- emprego do refrão e do paralelismo («Barca Bela»),
· Grande variedade métrica: adequação ao ritmo e desenvolvimento do tema ou motivo poético : uso de versos de metro raro, tais como os bissílabos e trissílabo («Rosa e lírio»), o verso de nove sílabas (eneassílabo), de onze sílabas (hendecassílabo); e uso do decassílabo heróico, mas com menor frequência.
· Uso de estrofes variadas: quadra, sextilhas, sétimas, oitavas, quintilhas décimas, alguns poemas apresentam estrofes com um número variado de versos.
· Recurso a rimas cruzadas, por sugestão popular, mas também às rimas emparelhadas e interpoladas. O poeta recorreu também às rimas interiores e encadeadas ( poema «Não te amo»).
· Há nos seus poemas o paralelismo, aliterações,.
· A linguagem é quase sempre simples e directa, aparentemente espontânea e marcada pela emotividade: o que está patente no uso da pontuação (travessão, reticências, exclamações).
· Nalguns poemas há marcas de narratividade e do género dramatização: diálogo eu - tu, narração.
· exploração com originalidade de recursos estilísticos: anástrofe, anáfora, interrogação, imagem, reticência, hipérbole, gradação, comparação, a metáfora e a antítese.
Os sinais de pontuação estão ao serviço da expressividade e do dramatismo, fazendo sublinhar as pausas naturais do discurso emotivo.

7. Aspectos românticos:

- O tratamento do sentimento amoroso: sinceridade, sensualidade e erotismo; feição contraditória (amor/ morte; dor/prazer; amor físico - amor ideal);( poemas «Este Inferno de Amar», «Não te amo»);
- Concepção da mulher : mulher-anjo / mulher-demónio («Anjo és» «Barca Bela»;
- Jogo de oposição: natureza-sociedade; homem natural /homem social («Estes sítios» e « Adeus»);
- A natureza como um estado de alma («Cascais» e «Estes sítios»;
- Valorização da tradição poética portuguesa («Barca Bela»;
- Linguagem mais simples , directa e espontânea;
-Valorização da emoção diante da razão.
- O tom confessional de alguns poemas : «Adeus», «Cascais», etc.